As mulheres no comando da florescente indústria da manga do Senegal

Uma das maiores plantações de manga do Senegal é dirigida por uma mulher, um indicador positivo do futuro promissor deste setor de crescimento. 

Aminata Dominique Diouf tinha sete anos quando o seu pai comprou uma pequena quinta a 15 minutos da fronteira entre o Senegal e a Gâmbia.

"Naquela idade eu não sabia verdadeiramente o que era a agricultura", declara. "Simplesmente ficava deslumbrada com as cores: a correr, a saltar, a tocar, a observar as pessoas a trabalhar sob o sol quente e o chilrear dos passarinhos".

Alguns anos mais tarde, surgiu a oportunidade de viajar para os EUA para visitar a sua amiga por correspondência e melhorar o seu inglês. Junto à casa da sua amiga existia uma grande extensão de terreno, onde Aminata observava um homem a conduzir um trator.

"Fiquei surpreendida, fascinada e cheia de perguntas a fazer, por isso um dia decidi visitá-lo. Ele explicou-me porque tinha escolhido aquela profissão em vez de trabalhar num escritório. Foi naquele dia que decidi ser agricultora. Disse ao meu pai que queria passar a administrar a sua plantação de manga quando terminei o meu curso na universidade", declara Aminata.

E em 2017, aos 26 anos, foi exatamente o que fez, tornando-se na Diretora Executiva da Domaine Agricole de Nema. Com 35 empregados a tempo inteiro, 20.000 mangueiras e parceiros em cinco países, a Domaine Agricole de Nema tornou-se numa das maiores plantações agrícolas do Senegal e, talvez, na única com uma mulher no comando.

A Domaine Agricole de Nema conta agora com mais de 1500 empregados e é altamente mecanizada. Situada na aldeia de Nemanding, na região de Fatick, está apenas a 15 minutos de automóvel da fronteira com a Gâmbia. A plantação tem uma área de 92 hectares, com três parcelas, designadas por Kawsara, Khelkom e Nema. 

"Temos estado a trabalhar com Aminata ao longo dos últimos 24 meses, ajudando-a a combater a mosca branca nas suas culturas e apresentando-a a novos mercados para as mangas do Senegal", declara Cheikh Saadbouh Seck, Coordenador da Unidade Nacional de Implementação do Quadro Integrado Reforçado no Ministério do Comércio do Senegal.

O Quadro Integrado Reforçado (QIR) procura ajudar os Países Menos Avançados a melhorar a sua oferta de produtos ao mercado global, aumentando a taxa de emprego, reduzindo a pobreza e dando passos vitais em frente em termos de desenvolvimento socioeconómico.

Em 2013, o QIR detetou que o setor da manga do Senegal possuía um imenso potencial por explorar.

"Na altura produzíamos 150.000 mangas por ano mas não tínhamos as certificações necessárias para exportar para os mercados internacionais", afirma Cheikh Saadbouh Seck.  

A formulação do projeto da manga teve início em 2013. Aprovado em agosto de 2014 pelo QIR, começou a ser implementado em 2015.

"Desde o início deste projeto, em 2015, temos trabalhado para criar as normas necessárias para aceder a estes mercados: oferecendo formação técnica aos agricultores para melhorar as suas práticas e criando infraestruturas como portos, serviços de transporte e unidades de armazenamento e de transformação para que o Senegal possa exportar um amplo leque de produtos de manga".

Nos últimos anos, o Senegal tornou-se na segunda maior fonte de manga da África Ocidental, depois da Costa do Marfim.

AUTONOMIA DAS MULHERES PODE LIDERAR ORIENTAÇÃO PARA AS EXPORTAÇÕES

Existe uma clara distinção nos papéis atribuídos aos homens e às mulheres na produção e venda de manga, ainda que as mulheres representem 45% do total dos agentes do setor. 

"No continente africano, as mulheres participam na agricultura e transformação de alimentos e desempenham um significativo papel na segurança alimentar, mas não têm os mesmos direitos que os homens no que respeita à terra. De uma maneira geral, as mulheres não possuem as suas próprias terras", declara Aminata.

As preocupações e a inclusão das mulheres foram incorporadas ao longo da implementação do projeto, recorrendo a uma abordagem inclusiva que integrava a participação feminina em cada fase da produção: do crescimento à colheita e à exportação. Na determinação da cadeia de valor, verificou-se que as mulheres representavam 90% dos agentes no marketing e 80% da força de trabalho das embalagens para exportação.

No total, 1211 produtores, empresas, ceifeiros e transportadores receberam formação ao abrigo do projeto do QIR sobre métodos de colheita, normas de qualidade e técnicas para combater pragas da manga. Os jovens foram organizados em seis associações, o que permitiu uma maior participação nas ações de formação.

Aminata decidiu realizar a formação por vários motivos: "Queria melhorar a minha empresa da melhor forma possível e expandir-me prudentemente no mercado internacional. Também fiquei feliz por ver o nosso governo investir mais na agricultura como forma de reduzir a taxa de desemprego dos jovens neste país", acrescenta.

Ao aplicar aquilo que aprendeu sobre redução de pragas e recorrendo a uma utilização extensiva da irrigação e de equipamentos modernos, Aminata viu-se apta a fornecer mangas frescas ao mercado antes da abertura oficial da estação, o que lhe permitiu ficar um passo à frente de outros produtores.

Conseguiu também obter certificação internacional junto da Tesco Nurture e da GLOBALG.A.P., tendo-lhe sido concedida a oportunidade de participar em conversações comerciais em Marrocos. As apresentações a importadores, gestores de portos, responsáveis aduaneiros e governamentais foram incrivelmente úteis para o futuro da sua produção neste novo mercado, conforme declarou.

A história de Aminata ilustra o sucesso do Senegal no reforço das cadeias de abastecimento da manga. Colocando a sua empresa no centro do aprofundamento da cadeia de valor da manga, Aminata tem conseguido oferecer benefícios à sociedade em geral.

"Este projeto tem exercido um impacto significativo na minha vida e nas vidas dos outros. O que é mais importante, permitiu-me contratar e ajudar jovens das aldeias vizinhas", declara, acrescentando que a sua empresa oferece alojamento no local para as famílias dos trabalhadores e um centro de saúde para pessoas das aldeias vizinhas.

"Agora conhecemos melhor o mercado internacional e a forma de encontrar soluções para os pontos fracos na nossa empresa. Este projeto permitiu-me ganhar a confiança das instituições financeiras a fim de conseguir empréstimos bancários".

Graças aos empréstimos bancários e conhecimentos conquistados com a participação nas atividades do projeto, Aminata conseguiu abrir a sua primeira unidade de transformação de alimentos. No Senegal, as mulheres representam 83% da força de trabalho ao nível da transformação no setor da manga.

"Iremos exportar 15 produtos de alta qualidade para o mercado: manga seca, sumo de manga, vinagre, geleia, chutney, xarope, compota... e até produtos de manga para bebés!"

Persistem desafios. Mesmo agora apenas meia dúzia de empresas, como a Domaine Agriculture, podem exportar para a UE e os EUA e apenas uma empresa exporta para o Canadá. O desafio de acrescentar valor às exportações está sempre presente.

"Estamos empenhados em trabalhar em conjunto – governo, setor privado, sociedade civil e parceiros de desenvolvimento – para impulsionar repercussões e efeitos multiplicadores do apoio do QIR e melhorar a capacidade de toda a gente. Estamos também a trabalhar para conseguir formular a melhor estratégia possível para o setor da manga em toda a cadeia de valor, da produção à transformação, logística e marketing dirigido aos consumidores. Se todos nós trabalharmos em conjunto poderemos resolver qualquer problema", declara Cheikh Saadbouh Seck.

Animata considera-se uma das "sortudas".

"Tive a oportunidade de conseguir mais 172 hectares no Senegal. Tenciono influenciar mais mulheres senegalesas a explorarem as suas próprias plantações privadas no Senegal", afirma.

"Chegou a hora de levantar, acordar, olhar para a terra e investir intensamente na agricultura".

Annette Mutaawe Ssemuwemba é Diretora Executiva Adjunta do Secretariado Executivo do Quadro Integrado Reforçado (QIR).